Ícone de fechar alerta de notificações
Avatar do usuário logado
Usuário

Usuário

email@usuario.com.br
ASSINE VEJA NEGÓCIOS

Pontos de inflexão climática: por que a Amazônia está no centro da COP30

Colapso da floresta, derretimento da Groenlândia e falha das correntes oceânicas expõem riscos de mudanças irreversíveis

Por Ernesto Neves Atualizado em 27 ago 2025, 11h09 - Publicado em 27 ago 2025, 09h32

A floresta amazônica é tão extensa que cria o próprio clima. Suas árvores, ao realizarem fotossíntese e transpiração, liberam bilhões de toneladas de vapor d’água, que se condensam e formam nuvens.

Esse processo é responsável por cerca de um terço das chuvas que garantem a sobrevivência da floresta e influenciam o regime hídrico de boa parte da América do Sul.

Esse equilíbrio, no entanto, está em risco. O aquecimento global elevou as temperaturas médias na região, intensificou secas prolongadas e aumentou a frequência e intensidade dos incêndios.

Cada árvore morta compromete a capacidade da floresta de manter o ciclo de umidade.

Menos árvores significam menos chuva, que por sua vez leva a mais calor e ainda mais queimadas.

O risco é de que esse processo se torne autossustentado, empurrando a Amazônia para um ponto de não retorno (tipping point), um estágio em que o colapso se torna inevitável, transformando grandes áreas de floresta tropical em savana.

A consequência não se restringiria à perda de biodiversidade. A Amazônia armazena dezenas de bilhões de toneladas de dióxido de carbono. Se esse estoque for liberado na atmosfera, o planeta inteiro será empurrado para um aquecimento ainda mais acelerado.

Continua após a publicidade
Icebergs emergem das águas da gelada Baía de Disko, próxima à cidade groenlandesa de Ilulissat
Icebergs emergem das águas da gelada Baía de Disko, próxima à cidade groenlandesa de Ilulissat (Getty/Getty Images)

O conceito de pontos de inflexão

O caso amazônico é apenas um dos exemplos de pontos de inflexão climática. Esses pontos são limiares em que processos ambientais passam a se retroalimentar, de modo que mudanças locais se transformam em alterações irreversíveis para todo o sistema climático da Terra.

Entre os mais estudados estão:

Groenlândia: o derretimento da camada de gelo pode elevar o nível do mar em mais de sete metros.

Circulação Meridional do Atlântico (AMOC): essa corrente marítima transporta calor do hemisfério sul para o norte e mantém o clima europeu relativamente estável. Seu colapso poderia reduzir drasticamente a temperatura e a precipitação no continente.

Continua após a publicidade

Permafrost do Ártico: o degelo desse solo congelado liberaria enormes quantidades de metano, um gás de efeito estufa muito mais potente que o CO₂.

Recifes de corais tropicais: em risco de morte em massa diante do aquecimento e da acidificação dos oceanos.

Esses pontos podem se interconectar em efeito dominó. O derretimento da Groenlândia, por exemplo, libera grandes volumes de água doce no Atlântico, enfraquecendo a AMOC.

O enfraquecimento da circulação oceânica reduz as chuvas sobre a Amazônia, acelerando o risco de colapso da floresta.

Incerteza não significa segurança

Determinar o momento exato em que um ponto de inflexão será atingido é extremamente complexo. O sistema climático é regulado por processos interdependentes e, em muitos casos, pouco compreendidos.

Continua após a publicidade

Alguns modelos sugerem que a Groenlândia pode ter iniciado um processo de declínio irreversível já no início dos anos 2000, quando o aquecimento global ultrapassou 0,8°C acima dos níveis pré-industriais. Outros apontam que o limite pode estar mais próximo dos 3°C.

Na Amazônia, estimativas variam entre 2°C e 6°C de aquecimento. Mas os cientistas alertam que o desmatamento contínuo pode precipitar esse ponto crítico, mesmo antes de o planeta atingir tais níveis de aquecimento.

O risco não é apenas climático, mas também humano: a ação direta das motosserras acelera o colapso natural.

A busca por sistemas de alerta

Para lidar com essas incertezas, pesquisadores e governos têm investido em tecnologia.

Em 2024, a Agência Britânica de Pesquisa e Inovação Avançada (ARIA) anunciou um programa de 110 milhões de dólares destinado a criar um sistema de alerta precoce para pontos de inflexão climática.

Continua após a publicidade

Equipes estão usando drones subaquáticos para mapear o derretimento das geleiras da Groenlândia, embarcações autônomas movidas a energia solar para medir temperatura e salinidade do Atlântico Norte e robôs terrestres para acompanhar o deslocamento das geleiras.

A ideia é coletar dados em tempo real que permitam identificar sinais precoces de mudanças abruptas.

Embora a tecnologia avance, sua utilidade dependerá da capacidade dos governos de transformar essas informações em políticas preventivas.

E até agora, poucos países encaram os pontos de não retorno com a mesma seriedade dedicada a riscos como pandemias ou crises financeiras globais.

Coral embranquecido pelo aquecimento do globo em Key West, nos Estados Unidos
Coral embranquecido pelo aquecimento do globo em Key West, nos Estados Unidos (Getty/Getty Images)
Continua após a publicidade

O debate político e a percepção de risco

Parte da comunidade científica teme que o foco excessivo nos pontos de inflexão gere paralisia política, alimentando um sentimento de que o colapso é inevitável. Outros argumentam que ignorar esses riscos apenas torna as sociedades mais vulneráveis.

Nos últimos anos, o tema começou a chamar a atenção não apenas de pesquisadores, mas também de setores como seguradoras, fundos de pensão e forças de defesa civil.

O crescente interesse demonstra que o debate sobre os pontos de não retorno está se deslocando da esfera científica para a esfera econômica e estratégica.

O que está em jogo na COP30

É nesse contexto que ocorrerá a COP30, a conferência climática da ONU marcada para novembro em Belém, no Pará. A escolha da cidade, considerada a “porta de entrada da Amazônia”, é simbólica: coloca a maior floresta tropical do planeta no centro das negociações internacionais.

O Brasil terá papel crucial em dois sentidos. Primeiro, por ser o país que abriga cerca de 60% da Amazônia, portanto, decisivo para evitar o colapso do bioma. Segundo, por sua capacidade de liderar a agenda global em torno da preservação de florestas tropicais e da transição energética.

Espera-se que o governo brasileiro pressione por maior financiamento internacional para conservar a Amazônia, ampliar mecanismos de pagamento por serviços ambientais e reforçar compromissos de corte de emissões.

Ao mesmo tempo, a presença da floresta no coração das discussões deve tornar a COP30 um marco na tentativa de evitar que o planeta ultrapasse 1,5°C de aquecimento em relação à era pré-industrial.

O futuro da Amazônia, e, em muitos aspectos, o futuro climático do planeta. estará em jogo em Belém.

Publicidade

Matéria exclusiva para assinantes. Faça seu login

Este usuário não possui direito de acesso neste conteúdo. Para mudar de conta, faça seu login

Digital Completo

Acesso ilimitado ao site, edições digitais e acervo de todos os títulos Abril nos apps*
De: R$ 16,90/mês
Apenas R$ 9,90/mês*
OFERTA RELÂMPAGO

Revista em Casa + Digital Completo

Veja Negócios impressa todo mês na sua casa, além de todos os benefícios do plano Digital Completo
De: R$ 26,90/mês
A partir de R$ 10,99/mês

*Acesso ilimitado ao site e edições digitais de todos os títulos Abril, ao acervo completo de Veja e Quatro Rodas e todas as edições dos últimos 7 anos de Claudia, Superinteressante, VC S/A, Você RH e Veja Saúde, incluindo edições especiais e históricas no app.
*Pagamento único anual de R$118,80, equivalente a 9,90/mês.

PARABÉNS! Você já pode ler essa matéria grátis.
Fechar

Não vá embora sem ler essa matéria!
Assista um anúncio e leia grátis
CLIQUE AQUI.

abrir rewarded popup