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Um perigo eterno volta à tona

O antissemitismo nem sequer tem o trabalho de se disfarçar

Por Vilma Gryzinski 26 out 2025, 08h00 •
  • O pacto da humanidade com os judeus é claro e sem margem a dúvidas: todas as pessoas decentes do mundo têm que dedicar um esforço sério a não permitir que a praga do antissemitismo volte a mostrar a sua hedionda cara, tanto para nos redimir dos erros do passado quanto para não deixar que o infinito mal recaia sobre nós outra vez. Infelizmente, a guerra em Gaza abriu uma porta para essa praga, a pretexto de que os “sionistas”ou “israelenses” — sabemos muito bem o que significam — matam deliberadamente criancinhas palestinas e proclamam serem alvo de preconceito quando denunciados.

    É tática que começou naquele 7 de outubro de 2023, quando israelenses, na maioria judeus, juntamente com alguns árabes e trabalhadores asiáticos, ainda estavam sendo trucidados pelo Hamas e por habitantes comuns de Gaza. Existe até o registro do primeiro ato público de culpabilização das vítimas e apoio aos vitimizadores: “Exortamos a todos a acompanhar o noticiário e pensar em várias maneiras de ajudá-los, seja politicamente ou através de lobby e exposição midiática. Preparem-se para manifestações em massa para apoiá-los”. Quem deveria ser “ajudado e apoiado” era o Hamas, e o desgraçado que falou isso é Haitham Al-Haddad, entrevistado pela BBC como “um imã altamente respeitado”.

    A motivação antissemita da outrora respeitada emissora pública britânica é tamanha que foram necessários protestos para obrigá-la a retirar de circulação um documentário sobre a vida de um menino de 13 anos em Gaza. Fatos não revelados na obra: o “personagem”, como diz o jargão jornalístico, tinha sido oferecido — contra remuneração em dinheiro — pela propaganda do Hamas, com a garantia de que só diria coisas “certas”, já que seu pai também é do movimento.

    “Existe até ato público de culpabilização das vítimas e apoio aos vitimizadores”

    O assunto do momento da onda de antissemitismo na Grã-Bretanha envolve futebol, algo estranho no país que foi um porto seguro para tantos judeus foragidos do nazismo e tem histórico de grandes figuras dessa identidade, desde Benjamin Disraeli, o gigantesco primeiro-ministro da era vitoriana, até Brian Epstein, o empresário dos Beatles, passando por intelectuais de esquerda e de direita, como Isaac Deutscher, Eric Hobsbawm e Bernard Lewis. O futebol entrou na história porque as autoridades policiais de Birmingham tomaram uma decisão inacreditável: proibiram a presença de torcedores do clube israelense Maccabi num jogo por um campeonato europeu com o Aston Villa, clube cujo torcedor mais conhecido é o príncipe William. Ou seja, no ano 2025, no progressista reino britânico, judeus estão sendo proibidos de participar de um evento público — em nome de sua segurança, claro. É nada menos do que execrável e provocou reações fortes.

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    Uma das citações mais conhecidas de Disraeli foi dita num debate com um deputado irlandês, que se referiu à origem étnica do primeiro-ministro, convertido na adolescência à religião anglicana. “Sim, sou judeu, e quando os ancestrais do excelentíssimo cavalheiro eram brutos selvagens numa ilha desconhecida, os meus eram sacerdotes no Templo de Salomão.” Numa versão mais conhecida, mas menos confirmada, ele diz que os ancestrais do parlamentar irlandês andavam nus com o corpo pintado de azul — fato histórico sobre os antigos habitantes das ilhas britânicas. Que falta nos faz um Disraeli.

    Publicado em VEJA de 24 de outubro de 2025, edição nº 2967

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