Carlinhos de Jesus, sobre a batalha para andar de novo: ‘Não vou largar o palco por nada’
'À noite, quando fecho os olhos, me vejo de pé outra vez. Olho para o futuro com otimismo'

Depois de uma vida inteira dedicada à dança, estar hoje em uma cadeira de rodas causa um choque. As pessoas ficam confusas. Nunca me imaginaram assim, muito menos eu, que conquistei tudo rebolando, como costumo dizer. Não há nada que tenha conseguido ao longo de minha trajetória que não passe por samba ou dança de salão, na qual me especializei. Desde pequeno, aos 4 anos, já dava meus passinhos, o que segui fazendo no subúrbio da Zona Norte do Rio de Janeiro, onde nasci e cresci. Nestes dias difíceis e cheios de incerteza, me lembro muito das maratonas carnavalescas na Marquês de Sapucaí, quando coreografava comissões de frente da Mangueira e da Portela, e também dos tempos em que ensinava adolescentes em situação de vulnerabilidade. Abri minha própria escola, que é até hoje um sucesso, e rodei o Brasil e o mundo sempre no auge da forma física. Minha saúde era inabalável. Agora, preso em uma cadeira da qual só saio para andar distâncias curtíssimas de muleta, é como se tivesse perdido a habilidade que me define.
Até poucos meses atrás, minha agenda seguia cheia de apresentações, palestras, programas de rádio e a participação no júri do Dança dos Famosos, na Globo, onde estou desde a estreia. Foi em junho que veio o baque e tudo mudou. Estava no meio de um trabalho no Rio Grande do Sul e comecei a sentir dores lancinantes no corpo. Voltei ao Rio e pedi à minha mulher que me levasse ao hospital para investigarmos a situação. Não estava aguentando mais tanto sofrimento. Aí deram o diagnóstico: bursite bilateral nos quadris, associada a tendinite nos glúteos. Fiquei quinze dias internado, à base de morfina. E não parei de me cuidar, com o objetivo de retomar a vida de antes. Faço fisioterapia quatro vezes por semana, musculação outras quatro, acupuntura, e continuo com medicação. A causa exata ainda é incerta, mas parece que o que me fez chegar até aqui foi o impacto acumulado de uma vida toda dançando.
Em meio à dor que persiste, sigo adiante, me adaptando como posso às circunstâncias. Tinha combinado há tempos de ir ao prestigiado festival de dança de Joinville, mas, diante da nova realidade, avisei à organização que não daria. A resposta deles me surpreendeu: “Queremos você como for”, disseram. E eu fui, com cadeira de rodas, cuidador e um quarto todo pensado para me receber. Dei quatro aulas a turmas de até 100 pessoas, só que de um jeito diferente. Indicava à minha assistente, com a ajuda da muleta, os passos da coreografia, que ela ensinava à classe. Quando os alunos me viam ali, na cadeira, percebia no rosto deles um espanto. Quem já viu um professor de dança de salão que não consegue se levantar e dançar? Foi uma experiência intensa e, mesmo fragilizado, extraí beleza daquilo.
Nos momentos de maior dificuldade, a dança sempre foi um alicerce. Vivi vários lutos — a morte do meu sobrinho e da minha mãe, que tiraram a própria vida, e a perda do meu pai e também do meu filho, neste caso de forma inesperada e violenta, assassinado no Rio em 2011, aos 32 anos. Curiosamente, sempre estava dançando quando vinha a notícia e dançando eu ia em frente, como uma forma de estar comigo mesmo, controlar a ansiedade e lidar com a tristeza. Já fiquei sem chão muitas e muitas vezes e superei. É o que vai acontecer agora. Tenho fé e batalho com todas as ferramentas que estão ao meu alcance para sair dessa cadeira. À noite, quando fecho os olhos, me vejo de pé outra vez. Olho para o futuro com otimismo. Uma certeza eu tenho: não importa o que aconteça, nunca vou largar a dança.
Carlinhos de Jesus em depoimento a Anita Prado
Publicado em VEJA de 22 de agosto de 2025, edição nº 2958