Oslo celebra Edvard Munch com museu moderno e espaçoso
Espaço na capital da Noruega vai abrigar uma coleção extraordinária com mais de 28 000 obras de arte
Na manhã do dia 22 de agosto de 2004, fazia uma temperatura agradável no verão de Oslo, capital da Noruega. Por isso, chamou atenção dos visitantes do museu no bairro de Tøyen a entrada de duas pessoas mascaradas e com roupas pesadas. O edifício que abrigava o legado do pintor norueguês Edvard Munch (1863-1944) estava cheio. Mas ninguém ousou se aproximar dos intrusos porque estavam armados. Seguiram diretamente aonde estava uma das versões da pintura O Grito, um clássico do artista, e a tiraram da parede. No caminho para o carro de fuga, pegaram ainda mais uma pintura, a também celebrada Madonna. Dois anos depois, ambas foram finalmente resgatadas, após uma série de prisões e tentativas frustradas de localizá-las. A facilidade com que o golpe foi aplicado levou as autoridades municipais a investir em uma casa mais segura e à altura daquele tesouro nacional. E assim nasceu o novo Munch, museu dedicado à obra do expressionista, que acaba de ser inaugurado.
Projetado pelo arquiteto espanhol Juan Herreros e seu sócio Jens Richter, o prédio de treze andares às margens do Fiorde de Oslo abriga, além do legado artístico do pintor, um teatro, uma biblioteca, um cinema, um restaurante rooftop, além de espaço para exposições temporárias. Com 60 metros de altura, a torre é revestida de painéis de alumínio reciclado, que refletem o sol durante o dia e emitem a luz interna à noite através de pequenas perfurações. A seção superior inclina-se sobre um edifício menor, com três andares, onde fica a entrada principal. O conjunto compõe o circuito cultural do bairro de Bjørvika, com a ópera da cidade e edifícios residenciais construídos como parte de um projeto de renovação urbana. “O prédio está aí, tem uma presença poderosa e faz parte da cidade”, declarou Herreros, que foi criticado pelo alto custo da iniciativa — cerca de 260 milhões de dólares — e pelos interiores minimalistas.
Os entusiastas, no entanto, não economizaram elogios. Um deles, por óbvio, foi o atual diretor do Munch, Stein Olav Henrichsen: “Esqueça tudo o que você sabe sobre museus, isso é totalmente diferente”. Um indicativo, além da arquitetura, é o logo, que esquece a palavra “museu” e aparece na fachada em letras imensas e inclinadas, talvez para atrair um público mais jovem. Outro é o modo como o acervo do artista, que doou seu patrimônio à capital norueguesa quatro anos antes de morrer, está disposto nos onze espaços expositivos. São mais de 28 000 obras de arte, além de textos, cartas, fotografias, equipamentos e outros pertences pessoais que totalizam 42 000 itens. Na produção artística, que cobre de 1873 a 1944, destacam-se naturalmente as várias versões de sua pintura mais celebrada, O Grito, cujo rosto só é menos conhecido do que a Monalisa, de Leonardo da Vinci.
Além do acervo de Munch, a instituição abriga as coleções de Rolf Stenersen, Amaldus Nielsen e Ludvig O. Ravensberg. Juntas, elas revelam um panorama da história da arte que se estende por quase 100 anos. Atualmente, há cinco exposições temáticas, com obras do acervo que mostram as várias facetas de Munch, desde as grandes telas até as experiências com autorretratos (ou seriam selfies?), passando pelas elaboradas xilogravuras. Há ainda mostras rotativas, como a que relaciona o trabalho da inglesa contemporânea Tracey Emin com o norueguês. É um pequeno mundo de possibilidades no que está sendo considerado o maior museu do mundo dedicado a um só artista.
Foi uma jornada difícil. O projeto surgiu em 2008, quando a Câmara Municipal de Oslo resolveu que a coleção Munch precisaria de um novo abrigo. Após idas e vindas, cancelamentos e reinícios, o concurso voltou à vida. Inicialmente, a inauguração estava prevista para 2014, quando a Noruega celebraria os 200 anos de sua Constituição. Problemas com o projeto arquitetônico e os custos, além da pandemia, acabaram atrasando a inauguração, até o mês passado. Entre críticas e elogios, as autoridades fizeram o que se esperava delas ao serem apontadas como fiéis curadoras de uma obra singular: preservá-la.
Publicado em VEJA de 17 de novembro de 2021, edição nº 2764