Recorde de investimentos
No VEJA Fórum Infraestrutura, políticos, empresários e investidores celebram o avanço das parcerias entre empresas e governos em projetos da área

Os gargalos de infraestrutura que há décadas limitam o crescimento do Brasil só poderão ser superados com o estímulo ao investimento privado — e o país vive hoje um raro alinhamento de condições favoráveis. Além das concessões e parcerias público-privadas (PPPs) lançadas pela União, estados e municípios, há capital disponível para financiar bons projetos, enquanto o Congresso trabalha na modernização das leis que regem os contratos. Bons exemplos não faltam. Em São Paulo, a reestruturação das contas públicas elevou a capacidade de investimento do estado de 3% para 14% da receita corrente líquida. “Isso prova que, quando se promove o ajuste fiscal, o retorno é muito rápido”, afirmou o governador Tarcísio de Freitas no VEJA Fórum Infraestrutura, realizado na segunda-feira 18, que reuniu autoridades, empresários e investidores para debater um dos temas mais urgentes do país. Mesmo com mais recursos no caixa, Tarcísio abriu espaço para a iniciativa privada ao criar, em 2023, uma secretaria dedicada às parcerias. A meta inicial era atrair 250 bilhões de reais em investimentos privados até o fim do mandato, mas o objetivo já foi superado: em junho, os projetos contratados somavam 354 bilhões de reais.
No Rio Grande do Sul, as concessões e PPPs realizadas somam investimentos de 46 bilhões de reais. Já os projetos em estudo devem carrear outros 26 bilhões de reais. As enchentes que castigaram o solo gaúcho em 2024 aceleraram as parcerias. “O estado não deve ser apenas o contratante dos serviços, mas também garantir os ganhos de eficiência típicos da iniciativa privada”, disse o governador Eduardo Leite. O governo federal também afirma estar comprometido com essa agenda. “Não temos preconceito com o capital privado”, disse Silvio Costa Filho, ministro de Portos e Aeroportos, acrescentando que, até o fim do mandato, sua pasta realizará sessenta leilões com potencial para atrair 30 bilhões de reais em investimentos. “É o maior programa de concessões da história.” A parceria entre poder público e empresas é, de fato, indispensável para melhorar a infraestrutura do país. “Muitas ideias de regulação vêm da iniciativa privada”, disse Guilherme Penin, vice-presidente de relações institucionais da Cosan. “O intercâmbio é fundamental.”

O setor privado tem sido o grande protagonista da transformação da infraestrutura brasileira. Um exemplo é a Motiva, que opera 37 concessões, entre rodovias, trens urbanos e aeroportos, e investiu 7,3 bilhões de reais no ano passado. Para o presidente da companhia, Miguel Setas, o dado mais revelador é que a gestão privada ainda responde por apenas 2% da malha de 1,7 milhão de quilômetros de estradas brasileiras. “Há um espaço gigante para projetos estruturantes no Brasil”, afirmou no painel que dividiu com Carlos Piani, presidente da Sabesp, e Penin, da Cosan. Essa expansão, no entanto, esbarra em uma limitação crítica: a escassez de mão de obra qualificada. O Brasil tem menos de seis engenheiros para cada 1 000 habitantes, ante 25 nos Estados Unidos e treze na China. “Nenhum país desenvolvido apresenta uma proporção tão baixa quanto a nossa”, alertou Vinicius Marchese, presidente do Confea, o Conselho Federal de Engenharia e Agronomia, no painel que compartilhou com Roberto Muniz, diretor de relações institucionais da Confederação Nacional da Indústria.
Outra preocupação é a defasagem da Lei Geral de Concessões, aprovada em 1995. Atualizar o texto, incorporando a experiência de trinta anos de contratos, é o objetivo de um projeto de lei aprovado pela Câmara dos Deputados em maio e enviado para a apreciação do Senado. Um dos pontos elogiados pelas concessionárias é a maior flexibilidade prevista no texto para reequilibrar financeiramente os contratos em casos de imprevistos, como os cada vez mais comuns eventos climáticos extremos. “Tivemos muito cuidado em assegurar o equilíbrio entre os interesses públicos e os privados”, disse o deputado Arnaldo Jardim (Cidadania-SP), relator do projeto, no painel ao lado de Olivier Girard, presidente da consultoria Macroinfra, e de André De Angelo, executivo-chefe da Acciona.

As concessionárias acompanham com preocupação a proposta de cobrança de 5% de imposto de renda sobre os ganhos das debêntures incentivadas a partir de 2026. Hoje isentos, esses papéis se tornaram a principal fonte de financiamento da infraestrutura e vêm registrando forte expansão: de 34 bilhões de reais em 2019 para 140 bilhões previstos até o fim de 2025. “A taxação reduzirá o apetite do mercado”, afirmou Bruno Funchal, presidente da Bradesco Asset Management, em painel que dividiu com Luciana Costa, diretora de infraestrutura do BNDES. Para os participantes do fórum promovido por VEJA, onerar o investidor para cobrir o déficit fiscal do Planalto seria um desserviço ao bom momento vivido pelo setor.
Publicado em VEJA de 22 de agosto de 2025, edição nº 2958