O incômodo da chaminé ao lado
A vizinhança de um campo de concentração usado por Hitler e Stalin
Era um bairro tranquilo, a pouco mais de quarenta minutos de Berlim, na pequena cidade de Oranienburg. Tinha casas lindas, elegantes. Os jardins eram floridos. Lá estava eu, passeando por aquele vilarejo, quando estranhei alguma coisa, como se fosse um primeiro sinal de algo ruim por aparecer. Havia uma loja exibindo na vitrine, à venda, entre outras armas, uma besta, aquele instrumento medieval que parece uma mistura de arco e flecha com espingarda. Andei por alguns quarteirões e cheguei ao lugar onde funcionou, entre 1936 e 1945, o campo de concentração de Sachsenhausen. O centro de visitantes oferece uma fascinante aula particular de duas horas, a quem estiver disposto a acompanhar os atenciosos guias.
Era minha primeira viagem à Alemanha e eu estava positivamente impactado pela visita que fizera ao Museu de História de Berlim. Uma das grandes sacadas do museu foi ter organizado a história alemã em ordem cronológica, de modo que fosse possível mergulhar em centenas de anos de uma vez só: das primeiras tribos germânicas ao império; da crise econômica depois da I Guerra à ascensão de Hitler pela via democrática, fazendo uso de símbolos das antigas tribos germânicas e do império para buscar legitimar sua máquina de comunicação. Hitler foi eleito prometendo acabar com a crise, moralizar, combater o comunismo — sempre atacando quem não se encaixasse em seu ideal étnico, de sexualidade, cultural e religioso.
Dizer que o nazismo é de ultradireita não é passar o pano para o comunismo. Stalin também usou Sachsenhausen para matar
Em Sachsenhausen foram presos, assassinados e incinerados judeus, criminosos, ciganos e gays. Segundo nosso guia e professor, os gays estavam na pior posição hierárquica dentro do campo, sofrendo ataques e discriminação de todos os lados. Ali, os nazistas obrigaram judeus a falsificar moeda inglesa para imprimir dinheiro e quebrar a economia britânica, como mostrou o filme Os Falsificadores, de 2007. Vejam só a ironia: imprimir dinheiro, artifício utilizado tantas e tantas vezes na história do Brasil para tentar “salvar” a economia, já foi considerado arma de destruição de guerra.
De acordo com o Museu do Holocausto — e todos os historiadores sérios —, o nazismo é um movimento de ultradireita, ao contrário do que diz aquele senhor que tem ligações com a milícia e também foi eleito democraticamente. Segundo ele, o fato de o partido alemão chamar-se Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães, e ter a palavra “socialista” em sua denominação, o faria próximo das ideias de Karl Marx. Reafirmar que o nazismo é de ultradireita não é passar o pano para o comunismo. Anos depois, Stalin usou o mesmo campo de Sachsenhausen para matar. Fidel perseguiu e matou os opositores do regime cubano, com cruel predileção pelos gays. E ressalve-se: dizer que comunismo é a mesma coisa que socialismo é um erro, assim como querer dizer que todas as posições políticas de direita são iguais. Não são.
Fanáticos e suas turmas sempre nos empurram feito multidão para os polos. Comigo não, obrigado. Entramos nos anos 20 do século XXI e, da visita a Sachsenhausen, uma coisa nunca mais sairá de minha cabeça: como aquele belíssimo bairro, florido, poderia conviver com o cheiro que saía das chaminés do vizinho?
Publicado em VEJA de 8 de janeiro de 2020, edição nº 2668